quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Testemunho

"Boa tarde.
O meu nome é Helena Lopes.
Há sensivelmente 4 anos, findo o tempo de gestação de uma gravidez normal, às 39 semanas, nasceu o David. Um menino que, como a maioria dos recém-nascidos, comia e dormia.
Ao fim de 3 meses o David não queria mamar, não dormia e chorava muito. Eu sentia que alguma coisa não estava bem, porém todos atribuíam o meu estado de ansiedade e preocupação o facto de ter a minha mãe numa fase terminal vítima de cancro, contudo eu sabia que não era “só” isso e escrevo “só” entre aspas, pois não foi certamente o período mais fácil da minha vida o receber a notícia de que restariam pouco mais de 2 meses de vida à minha mãe.
Por volta dos 10/12 meses, o David começou a dizer as primeiras palavras e por aí ficou.
Na consulta de rotina dos 2 anos, no Centro de Saúde, partilhei com o médico assistente que me preocupava o facto de o David falar muito pouco e também outros comportamentos que eu não achava adequados a uma criança de 2 anos. O médico respondeu-me que eram coisas da minha cabeça. Saí do consultório insegura e com a sensação de que ninguém, quer profissionais como familiares, me estavam a compreender.
Dois meses depois, o David fez uma crise de asma e, numa ida à urgência do Hospital Pediátrico, a médica de serviço, que por acaso era uma pediatra de desenvolvimento (Drª Susana Nogueira), percebeu de imediato que algo se passava, não só pela observação que fez do David, mas também pela preocupação e angustia que eu fazia transparecer pelo facto de não saber o que se passava com o meu filho, para além da crise que nos levou à urgência.
Conversámos durante uma hora e no fim da consulta a médica encaminhou-me para uma consulta de desenvolvimento. Ao despedir-se de mim, segurou-me nas mãos e disse-me “A partir deste momento a senhora deixou de estar sozinha”. Confesso que, na altura, não entendi muito bem o que ela queria dizer.
Na consulta de desenvolvimento, fui encaminhada para uma consulta de autismo e, posteriormente, informada de que iria ser contatada por técnicos da intervenção precoce. Não percebemos muito bem no que consistia o trabalho destas pessoas. Aguardei que me contactassem, contudo a angústia era grande e eu sentia que as minhas capacidades não estavam à altura das exigências do meu filho. Peguei na lista telefónica, procurei o contacto da ANIP, tomei a iniciativa e contactei com a sede da equipa de intervenção precoce no Hospital Pediátrico. Do outro lado da linha, e percebendo o meu desespero, alguém me disse que o apoio não tardaria. Três dias depois do meu telefonema, recebi em minha casa uma assistente social, uma psicóloga e uma terapeuta da fala e uma educadora de educação especial. Passámos 3 longas horas a conversar. No fim, e já sozinhos em casa, eu e o meu marido sentimos que aquele era um ponto de viragem nas nossas vidas. Sentimo-nos de tal forma compreendidos que nos invadiu uma sensação de alívio difícil de explicar. Ficámos muito orgulhosos de ser portugueses e de viver num país onde existem instituições que funcionam e correspondem às necessidades de quem os procura e sem termos de pagar nada por isso. Esta sensação de alívio permitiu-nos começar a ver as “coisas noutra perspetiva, pondo em primeiro lugar o David e só depois o autismo e é esta máxima que tem regido a vida da minha família ate hoje.
Alguns meses depois chega o diagnóstico formal “autismo atípico”. O mundo poderia ter desabado por completo para a minha família, mas devido a uma intervenção eficaz e precoce dos técnicos da ELI (Equipa Local de Intervenção Precoce) que me acompanhava, e me acompanha até hoje, a especialista deparou-se no gabinete com um casal emocionalmente estruturado e sem o desespero comum que seria expectável ao fazer-se este tipo de diagnóstico.
Parece-me que esta é a verdadeira missão da Intervenção Precoce que, mesmo não sendo prestadores de serviços, tenta capacitar os pais para estar à altura de responder a estes desafios.
Quando nasceu, algum tempo depois, o grupo de apoio “Pais em Partilha”, eu e o meu marido sentimo-nos novamente orgulhosos de viver num país onde exista um grupo de técnicos que, voluntariamente, se disponibilizaram e, abdicando do convívio familiar, um domingo por mês, permitiram que um grupo de pessoas inseguras, outras apavoradas acabando de receber o diagnóstico, mas todos com uma caraterística em comum: um(a) filho(a) com autismo, encontrassem um porto de abrigo. Quando chegámos ao grupo, eu e o meu marido, indo já com uma sólida estrutura emocional, sentimos que estávamos a dar um contributo bastante positivo.
Neste momento, preocupam-me os pais e mães que, desesperados, recebem agora o diagnóstico e que, muitos, não tenham conhecimento deste nosso grupo ou de outras infraestruturas que estão ao seu dispor, prontos para os ajudar e orientar nesta fase inicial em que tudo parece estar virado contra nós.
O ponto de viragem ao qual me referia atrás é exatamente o que estes pais precisam para se estruturarem e assim responderem de maneira eficaz aos desafios que aí vêm. Quando chegarem a este patamar conseguirão, como eu, centrar-se primeiro no(a) seu(sua) filho(a), nas suas características, nas suas competências e só depois no autismo.
A minha receita é simples: aceitei o diagnóstico, desvinculei-me do rótulo, fiz do David uma criança perfeitamente integrada na sociedade. Amo-o incondicionalmente e sem reservas.
Por tudo isto, pergunto-me sempre em primeiro lugar, não o que é que o autismo pode fazer ao meu filho, mas sim o que é que o meu filho através das suas enormes capacidades, competências e evoluções, pode fazer pelo autismo.

Garanto-vos que, aplicando esta máxima todos os dias, os resultados são evidentes e surpreendentes."
                                                                                                                                     Helena Lopes

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